Por que os governos de esquerda caíram na América Latina?

A América Latina tem um processo histórico característico: desde sua colonização pelos países europeus até as ditaduras em um passado recente, o continente tem seu processo de desenvolvimento atrasado pela exploração de terras e povos.


Nos anos 1990, o continente parecia que ia encontrar o caminho do desenvolvimento: a maioria dos países estava sendo governado por progressistas e alcançou elevados crescimentos em seu PIB.


Porém, desde a crise mundial de 2008, vultosas reservas financeiras deixaram de circular pelo mundo, a exportação de commodities foi afetada e os investimentos estrangeiros em países emergentes perderam força.

A perda desses investimentos e a queda no preço das commodities foram, ao longo dos anos, levando os países da América Latina a uma crise financeira que levou muitos governos a contraírem déficits fiscais.

Esse foi o cenário perfeito para a ascensão dos discursos liberais e a chegada ao poder dos movimentos de direita, que têm como objetivo o corte de gastos públicos e o desmonte do Estado de Bem-Estar Social, a valorização da livre concorrência e o fortalecimento do setor privado.

Argentina

Kirchnerinistas

Cristina Kirchner entregou o governo da Argentina em 2015, depois de 12 anos de kircherismo. Defensores dos direitos humanos, chamados de “populistas” pelos opositores, os Kirchner, Nestor (2003 – 2007) e Cristina (2007 – 2015), foram responsáveis por etapas de grande crescimento econômico, como a recuperação da crise do início dos anos 2000, e por um longo período de alta do PIB (atingindo um pico de 10,1% de crescimento real em 2010), segundo dados do FMI.

Porém, a partir de 2011, sentindo os efeitos da crise internacional de 2008, o país entrou em recessão. Mesmo assim, Cristina Kirchner deixou o poder em 2016 com 40% de aprovação.

Como seu sucessor, a Argentina elegeu Mauricio Macri, candidato da direita neoliberal que prometia mudanças econômicas e combate à corrupção (seu slogan fazia referência à uma “revolução da alegria”). Porém, em 2018 o país estava afundado em uma crise mais profunda ainda: o peso desvalorizou em mais de 50%, houve aumento de até 1000% no preço da água, luz e gás e de 300% no transporte público e boa parte da população foi jogada de volta à situação de pobreza.

Fontes de referência:
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/11/151123_altos_baixos_kirchnerismo_mc_rb   
http://infograficos.estadao.com.br/internacional/kirchnerismo-na-argentina/capitulo-3.php  
http://www.imf.org/external/datamapper/NGDP_RPCH@WEO/ARG
https://www.cartacapital.com.br/mundo/com-governo-macri-argentinos-voltam-a-viver-fantasma-de-2001/  
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/09/internacional/1536501249_312152.html

Bolívia

Evo Morales

Evo Morales assumiu o governo da Bolívia em 2006, sendo o primeiro indígena a comandar o país (os indígenas compõem 62,2% da população, segundo relatório da CEPAL, 2014). Seus maiores opositores são membros da elite branca boliviana.

No seu primeiro mandato, nacionalizou a exploração do petróleo e do gás natural, além de reduzir seu salário em 57%. Em 2009 conseguiu aprovar uma nova Constituição, criando o Estado Plurinacional da Bolívia, reconhecendo e dando autonomia para 36 nações indígenas.

Seu governo é marcado por elevação no crescimento do PIB, redução da pobreza e aumento do poder de compra.

https://emergenciapolitica.org/america-latina/paises/bolivia/
https://epoca.globo.com/mundo/noticia/2018/01/bolivia-o-governo-de-evo-morales-esta-perto-do-fim.html
https://www.todamateria.com.br/evo-morales/
http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=798

Brasil

Era PT

O governo de 13 anos do Partido dos Trabalhadores no Brasil é assunto controverso. Indicadores econômicos não negam: foi o período de maior crescimento econômico do período democrático do país (chegando a 7,5% em 2010), milhões saíram da lista da pobreza e o poder de consumo aumentou. Porém, o aumento da dívida interna, a má condução dos efeitos da crise de 2008 e denúncias de corrupção resultaram em uma grande crise econômica que acabou afugentando investimentos e levando ao impeachment da presidenta Dilma Roussef e à perda das eleições de 2018 para um candidato neoliberal e conservador da extrema direita.

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/05/160505_legado_pt_ru
https://exame.abril.com.br/brasil/o-que-fica-para-o-brasil-apos-13-anos-de-governo-do-pt/
https://www.nexojornal.com.br/especial/2016/09/02/10-%C3%ADndices-econ%C3%B4micos-e-sociais-nos-13-anos-de-governo-PT-no-Brasil

Chile

Michelle Bachelet

O Chile não é um país de esquerda. Talvez seja o maior exemplo de neoliberalismo na América do Sul.

Michelle Bachelet, que governou o país de 2006 a 2010 e de 2014 a 2018, também não foi um grande exemplo de governo de esquerda (apesar de ela se declarar socialista), mas foi uma figura importante no processo de redemocratização do país e na aproximação política com os governos de esquerda dos demais países sul-americanos.

O modelo neoliberal deixado por Pinochet garantiu um crescimento econômico às custas de uma enorme desigualdade social, baixos salários e serviços básicos privatizados e Michelle Bachelet não conseguiu desmontar esse modelo. Seu sucessor, Sebastián Piñera (que intercalou a presidência com Bachelet, governando de 2010 a 2014) é um liberal conservador e não pretende rever esses pontos.

Em setembro de 2018, Michelle Bachelet assumiu o cargo de alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, na ONU.

https://oglobo.globo.com/mundo/da-ditadura-ao-governo-bachelet-entenda-chile-em-5-pontos-22080483

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/11/internacional/1520730340_914044.html

https://diplomatique.org.br/retrocessos-e-avancos-do-governo-bachelet/

https://nacoesunidas.org/michelle-bachelet-assume-chefia-de-direitos-humanos-da-onu/

Cuba

Fidel e Raúl Castro

Todo mundo conhece a história de Cuba: o país era governado por Fulgêncio Batista (um ditador aliado dos grandes latifundiários e dos estadunidenses), sofreu uma revolução em 1959, ficou isolado do mundo pelo embargo dos EUA – que levou o país ao empobrecimento econômico- , se aliou à URSS, adotou o comunismo como ideologia política e sofreu as consequências econômicas da crise do socialismo e da separação da URSS.

Fidel Castro, um dos líderes da revolução, governou o país de 1959 a 2008 e até hoje desperta sentimentos controversos.  Seus críticos o acusam de ser um ditador ou um terrorista sem respeito aos direitos humanos, enquanto seus simpatizantes lembram que ele livrou Cuba do imperialismo estadunidense e garantiu saúde, educação e moradia a todos.

Em 2006, Fidel passou o cargo de presidente (no primeiro momento, interinamente) ao seu irmão, Raúl, que admitiu algumas aberturas: compra e venda de imóveis e carros, abertura de empresas privadas, liberdade para viajar para outro país e a chegada da internet. Em 2015, iniciou uma negociação de reaproximação com Barack Obama, então presidente dos EUA – reaproximação essa que foi interrompida pelo seu sucessor Donald Trump.

Em abril de 2018 Miguel Díaz-Canel foi eleito pela Assembleia o novo presidente de Cuba.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/a-trajetoria-de-fidel-castro.ghtml

http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2018-04/cuba-elege-1o-presidente-apos-60-anos-de-governo-dos-irmaos-castro

La política de salud en Cuba en el nuevo milenio: la contribución del Trabajo Social

Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rk/v17n2/1414-4980-rk-17-02-0207.pdf

Equador

Rafael Correa

Correa assumiu a presidência do Equador em 2007 após um período político conturbado no país: os seis presidentes anteriores enfrentaram muitos problemas para governar e alguns não terminaram o mandato.

Em 2009, na sua reeleição, prometeu “radicalizar o socialismo do século 21” e se aliou aos demais presidentes de esquerda da América do Sul, adotando uma política de fortalecimento do Estado de Bem-Estar Social que resultou em uma diminuição significativa da pobreza.

O atual presidente do Equador, Lenín Moreno, é seu afilhado político. Correa pretendia disputar mais uma eleição, mas um referendo em 2018 colocou fim à reeleição ilimitada no país. Acusado de corrupção, abandonou o partido que ajudou a fundar.

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/02/05/A-derrota-que-interrompeu-os-planos-de-Rafael-Correa-no-Equador

https://internacional.estadao.com.br/blogs/radar-global/avancos-e-retrocessos-nos-10-anos-de-governo-de-rafael-correa/

México

López Obrador

Apesar de o México possuir diversos partidos políticos, o PRI (Partido Revolucionário Institucional) é o partido que mais governou o país: de 1929 ao ano 2000 e depois de 2012 a 2018.

O PRI surgiu como PNR (Partido Nacional Revolucionário) como um meio de legalizar os veteranos da Revolução Mexicana no poder e permanece membro da Internacional Socialista, porém enquanto esteve no poder, não seguiu suas orientações ideológicas e adotou uma posição neoliberal, sendo acusado de corrupção, de conivência com a violência e com o tráfico de drogas e de governar para as elites.

Diante desse quadro, as eleições de 2018 trouxeram outro vencedor, desta vez de esquerda: o social-democrata do Movimento de Regeneração Nacional (MORENA),  Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO, que promete o combate à corrupção e o respeito aos direitos humanos.

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/07/pri-do-mexico-o-partido-que-governou-por-mais-tempo-na-america-latina.html

https://g1.globo.com/mundo/noticia/quem-e-lopez-obrador-presidente-eleito-no-mexico.ghtml

https://www.dw.com/pt-br/an%C3%A1lise-vit%C3%B3ria-de-l%C3%B3pez-obrador-%C3%A9-terremoto-pol%C3%ADtico-para-o-m%C3%A9xico/a-44492620

Nicarágua

Daniel Ortega

Daniel Ortega foi um guerrilheiro sandinista na Nicarágua (o sandinismo foi um movimento político de esquerda, socialista, nacionalista e latino-integracionista, que derrubou o governo aliado dos EUA em 1979 na Nicarágua), se tornou presidente entre 1985 e 1990, tendo voltado ao cargo em 2007 e nele permanecendo até os dias de hoje.

No início dos anos 1980, o governo revolucionário da Nicarágua dedicou-se à redistribuição da riqueza, bem como à promoção da saúde e da educação.

Porém, o poder parece ter subido à cabeça de Ortega: através de manobras políticas e alianças questionáveis, o político se mantém no poder há cerca de 20 anos. Em 2018, o mesmo governo que lutou contra os desmandos de uma ditadura, passou a perseguir violentamente seus opositores, dividindo a esquerda latino-americana.

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45059107

https://diplomatique.org.br/nicaragua-o-que-resta-do-sandinismo/

https://www.theguardian.com/world/2018/oct/18/nicaragua-amnesty-international-police-killings-daniel-ortega

Paraguai

Fernando Lugo

O Paraguai é governado desde 1947 pelo mesmo partido político, o Partido Colorado. A única lacuna deste período de tempo ocorreu de 2008 a 2012 quando a Frente Guassú conseguiu eleger Fernando Lugo.

Lugo não tinha apoio parlamentar (o parlamento era formado por uma maioria do Partido Colorado e do Partido Liberal) e perdeu o apoio de seu vice, sofrendo um impeachment relâmpago (o processo durou menos de 30 horas) em 2012, acusado, entre outras coisas, de má condução no conflito rural de Curuguaty (onde 17 pessoas morreram) e de falta de transparência em um acordo de venda de energia elétrica para a Argentina. O processo de impeachment causou controvérsias internacionais e os países da Unasul e do Mercosul o consideram ilegítimo.

Durante o governo de Lugo, o Paraguai teve seu maior crescimento econômico: 15,3% do PIB, em 2010.

O presidente eleito em 2018, Mario Abdo Benítez (chamado de “Marito”), é filho do secretário pessoal do ditador Alfredo Stroessner e deve seguir a agenda do seu antecessor, Horacio Cartes, com expansão das privatizações. Segundo a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), a desigualdade social do Paraguai é a segunda maior da América Latina, atrás somente do Brasil.

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2012/06/22/entenda-a-crise-que-levou-a-destituicao-do-presidente-lugo-no-paraguai.htm

https://www.ultimahora.com/fernando-lugo-destaca-los-logros-su-gobierno-al-comenzar-su-cuarto-ano-mandato-n454750.html

http://br.rfi.fr/americas/20180815-novo-presidente-do-paraguai-toma-posse-em-meio-crise-politica

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/22/internacional/1524357177_703554.html

Uruguai

Pepe Mujica

Pepe Mujica é o queridinho da esquerda sul-americana (quiçá, do mundo). Guerrilheiro que lutou contra a ditadura, ficando preso por 13 anos (11 deles em uma solitária), Mujica se tornou presidente do Uruguai em 2010.

Conhecido por levar uma vida simples mesmo durante seu mandato (seu fusca azul 1982 e sua cachorrinha vira-latas de três patas Manuela viraram símbolos nacionais), em seu governo ocorreu a regulação da produção e comercialização da maconha, a descriminalização do aborto até 12 semanas de gestação, legalização do casamento gay, além da queda nas taxas de pobreza e do nível de desemprego.  Mujica doava 90% de seu salário de presidente ao Fundo Raúl Sendic, uma iniciativa que empresta dinheiro a projetos cooperativos sem cobrar juros.

Em 2018, aos 83 anos, renunciou ao cargo de senador alegando problemas pessoais.

Dois filmes retratam momentos de sua vida: o longa de ficção A Noite de 12 Anos, do uruguaio Álvaro Brechner, e o documentário El Pepe,Una Vida Suprema, do sérvio Emir Kusturica.

https://www.hypeness.com.br/2015/03/o-legado-de-pepe-mujica/

https://epoca.globo.com/10-coisas-que-talvez-voce-nao-saiba-sobre-ex-presidente-agora-ex-senador-uruguaio-jose-pepe-mujica-22988171

Transformamos pobres em consumidores e não em cidadãos, diz Mujica. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46624102

Venezuela

Hugo Chavez

Hugo Chavez é mais um líder latino-americano controverso. Há quem ame e há quem odeie.

Entre os que amam estão os 2 milhões de famílias beneficiadas pelo seu programa de casa própria e os beneficiados pela reforma agrária, pela ampliação do sistema de saúde e de educação (em uma parceria com Cuba).

Entre os que o odeiam estão os liberais, que o acusam de dividir o país, de atentar contra a propriedade privada, de acabar com a liberdade de imprensa e com a democracia.

Chavez venceu as eleições de 1998, depois de ficar preso por dois anos por tentar tomar o poder através de um golpe militar, e ficou 14 anos no poder, até ser vencido por um câncer em 2013. Se definia como socialista e anti-imperialista.

Seu sucessor, Nicolas Maduro não conseguiu manter a popularidade de Chavez e o país entrou em uma crise política e econômica sem fim.

O país sofre um bloqueio internacional promovido pelos EUA, isolamento político e dependência do petróleo, cujo preço internacional sofreu uma queda nos últimos anos, causando uma crise econômica que levou a população à miséria. A inflação em 2018 foi estimada em 1.000.000%.

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/03/130103_obituario_chavez_cj.shtml

https://www.brasildefato.com.br/2018/03/05/hugo-chavez/

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/12/08/o-que-mudou-na-venezuela-20-anos-apos-triunfo-de-hugo-chavez.ghtml

Mapa da mudança política na América Latina nos últimos dez anos (2008-2018)

https://www.reddit.com/r/brasil/comments/a6e7wi/mapa_da_mudan%C3%A7a_pol%C3%ADtica_na_am%C3%A9rica_latina_nos/ (acesso: 19/12/18)


Outros links:

América Latina vive o fim da era dourada da esquerda no poder. https://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/27/internacional/1456608633_490106.html

Como reinventar a esquerda latino-americana
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/02/internacional/1541179159_896155.html